
Ansiedade na visão da medicina e da psicanálise
Débora Fálico Quintana
•22/11/2025
•5 min
Segundo o Ministério da saúde, a ansiedade é uma resposta natural do corpo a situações percebidas como desafiadoras ou ameaçadoras, e ela tem origem tanto genética quanto ambiental. No entanto, quando se torna excessiva ou persistente, pode interferir significativamente no bem-estar e no dia a dia. A ansiedade patológica manifesta-se através de sintomas físicos, emocionais e comportamentais. Pode-se dizer também que o estilo de vida moderno, com a vida acelerada, as redes sociais e tantas outras possibilidades que hoje temos para ocupar nosso tempo, vem interferindo para números exorbitantes desse transtorno no século XXI.
As implicações da ansiedade no quotidiano são inúmeras:
-Na produtividade no trabalho e estudos, com dificuldade em concentrar-se devido a pensamentos constantes sobre preocupações futuras, procrastinação por medo de falhar, sensação de cansaço constante, diminuindo o rendimento.
-Nas relações interpessoais, pois o indivíduo tende a ficar irritado ou impaciente, e isso afeta a comunicação com amigos, familiares ou colegas de trabalho.
- Na tendência ao isolamento social por medo de julgamentos ou situações desconfortáveis. Dificuldade em participar de eventos sociais ou tomar decisões em grupo.
-Na saúde física, com sintomas de tensão muscular, dores de cabeça, insônias, palpitações, problemas gastrointestinais, aumento do risco de doenças relacionadas ao estresse, como hipertensão e enfraquecimento do sistema imunológico.
-Na saúde mental com sentimento constante de inquietação, nervosismo ou pânico, desenvolvimento de transtornos como fobias, transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno de pânico ou ansiedade social.
A ansiedade também está ligada ao desenvolvimento da depressão, criando um ciclo de sofrimento psicológico. Com a qualidade de vida prejudicada, a tendência é diminuir a capacidade de desfrutar momentos de lazer, pois existe um medo constante do futuro, de situações hipotéticas, sensação de perda de controle, e tudo isso afeta a autoestima.
No entanto, na psicanálise, a ansiedade é compreendida como um fenômeno psicológico complexo, ligado ao funcionamento do inconsciente e aos conflitos internos. Sigmund Freud dedicou parte significativa de seu trabalho a explorar as origens e manifestações da ansiedade, relacionando-a às dinâmicas entre as estruturas da mente (id, ego e superego) e às experiências vividas.
Na visão freudiana, a ansiedade é um sinal de alerta de perigo interno, um alarme que o ego utiliza para alertar sobre a possibilidade de um conflito interno emergente. Esse conflito surge, geralmente, do confronto entre os desejos inconscientes do id (impulsos primitivos e instintivos), as demandas da realidade (geridas pelo ego) e as restrições morais e éticas impostas pelo superego.
Freud acreditava também que a ansiedade está relacionada às pulsões (energias psíquicas) reprimidas. Quando um impulso do id é percebido como perigoso ou inaceitável pelo ego ou superego, ele pode ser reprimido, mas essa repressão gera uma tensão que se manifesta como ansiedade.
Nessa teoria, Freud identificou diferentes formas de ansiedade:
- A ansiedade realista que é o medo de perigos externos ou situações reais que ameaçam o indivíduo.
- A ansiedade neurótica que surge do medo de que os desejos inconscientes do id se tornem incontroláveis, levando a punições ou consequências negativas.
- A ansiedade moral que está associada ao conflito entre os desejos do id e os ideais do superego, resultando em culpa ou vergonha.
- A ansiedade e desenvolvimento psicossexual, onde a ansiedade também está ligada a experiências de desenvolvimento infantil (fases do desenvolvimento psicossexual - oral, anal, fálica, latência e genital), e os conflitos mal resolvidos dessas fases podem gerar traumas inconscientes, predispondo o indivíduo à ansiedade em situações futuras semelhantes.
O alívio dos sintomas e/ou tratamento desse transtorno segundo a medicina e o ministério da saúde, seriam envolver-se em técnicas de relaxamento como a prática meditação, yoga ou exercícios de respiração profunda; atividade física regular, pois ajuda a reduzir a tensão e libera endorfinas, promovendo uma sensação de bem-estar; terapia com acompanhamento de um psicólogo para ajudar a identificar gatilhos e desenvolver estratégias de enfrentamento; mudanças na rotina estabelecendo horários regulares de sono, mantendo uma alimentação equilibrada e reduzindo o consumo de cafeína e álcool; autocuidado reservando tempo para hobbies e atividades prazerosas. Caso a ansiedade seja intensa e persistente, é recomendável procurar ajuda médica, pois pode ser necessário um tratamento mais direcionado, como terapia cognitivo-comportamental ou uso de medicação sob orientação.
Para Freud, o tratamento não se concentra apenas em aliviar os sintomas, mas em explorar e resolver as causas subjacentes, e as estratégias incluem a livre associação, onde o sujeito é encorajado a falar livremente, permitindo que conteúdos inconscientes aflorem à consciência; análise dos sonhos, pois eles são vistos como "a via régia para o inconsciente" e podem revelar desejos reprimidos ou conflitos que geram ansiedade; transferência na relação entre analista e analisando, pois ajuda a identificar padrões emocionais inconscientes que influenciam o comportamento ansioso; elaboração dos conflitos a partir da conscientização desses conflitos internos, ajudando o indivíduo desenvolver mecanismos mais saudáveis para lidar com seus impulsos e ansiedades.
Assim, na perspectiva freudiana, a ansiedade não é um problema, e sim um sintoma que aponta para questões mais profundas, exigindo uma exploração das raízes inconscientes (dos desejos, dos traumas e das repressões), para que seja possível promover o equilíbrio psíquico efetivo.
Referências bibliográficas
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/transtornos-de-ansiedade-podem-estar-relacionados-a-fatores-geneticos
BRASIL. Ministério da Saúde. Ansiedade: o que é, sintomas, causas e tratamento. Brasília: Ministério da Saúde, s.d. Disponível nos materiais informativos e cartilhas de saúde mental do SUS.
FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade (1926). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XX.