Psicanalistas sem Fronteiras

ANTIDEPRESSIVOS, MACONHA, PSICANÁLISE E ELABORAÇÃO

Raphael Bispo
•
16/04/2026
•
4 min
ANTIDEPRESSIVOS, MACONHA E ELABORAÇÃO. Qual é o caminho da cura? Essa é uma pergunta ampla, mas é importante que seja respondida. Primeiro, para sabermos qual é o caminho da cura, precisamos entender quais são as doenças que precisam ser curadas. A psicanálise trata da mente, então, neste caso, essas doenças estão localizadas em nosso psíquico. Nosso psíquico é a nossa mente, o nosso cérebro, nosso sistema operacional ou nervoso que comanda as ações do nosso corpo. Cada ser humano tem as suas particularidades, porém, Freud desenvolveu teorias referentes as estruturas psíquicas concernentes a todos os indivíduos, mapeando os comportamentos mais comuns e os desequilíbrios. Em psicanálise, temos três estruturas psíquicas principais que caracterizam as enfermidades. São elas: a neurose, a psicose e a perversão. Cada uma delas é como se fosse um escoamento para onde a libido pode "cair", se não for bem desenvolvida. Para qual destes 3 caminhos a libido irá cair dependerá unicamente da experiência individual de cada um. Durante a infância, as crianças são indefesas e totalmente dependentes de seus pais ou cuidadores, ficando à mercê deles. Portanto, o seu ambiente influenciará completamente no desenvolvimento de seu psicológico. Este desenvolvimento ocorre por meio da libido. A libido é a nossa energia vital que é regurgitada pelo plexo solar, no centro do estômago. Essa energia se divide inicialmente em duas pulsões: pulsão de sobrevivência e pulsão sexual. Na primeira, busca a autopreservação, e em segundo lugar busca o prazer. Há todo um caminho a ser feito por essa libido durante a infância, e este caminho é dividido em 5 fases. Fase oral, fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital. Frustrações ou gratificações exageradas, ou seja, estímulos negativos ou positivos muito potentes durante essas fases criam fixações. Essas fixações ficam marcadas no corpo e nas emoções. Caso a sexualidade da pessoa não siga o seu percurso natural a partir das fixações, toda a sua vida adulta fica marcada por sintomas e estruturas psíquicas regredidas. E aí, chegamos em: psicoses, neuroses e perversões. Neuroses se baseiam no conflito entre as pulsões dentro de nós, principalmente a sexual, e o nosso ego, que reprime esse impulso. Psicoses se baseiam em uma rejeição deste impulso, transformando-o em algo estranho, alheio, inexistente, o que cria um caos generalizado no inconsciente. O ego não consegue mais intervir. Perversões se baseiam na satisfação das pulsões dentro de nós, principalmente a sexual, restringindo a capacidade e potencial maior da sexualidade, se satisfazendo sem culpa dentro de parafilias e parcialismos, como voyeurismo, sadismos, masoquismos, etc. Em todas essas estruturas psíquicas existem pontos em comum: 1) a sexualidade insatisfeita e parcialmente resolvida 2) angústia. 3) hormônios e neurotransmissores desregulados. 4) psicossomatizações não resolvidas. Viver com essas doenças psíquicas gasta muita energia, criando uma desarmonia entre corpo e mente. Nos atendo principalmente ao terceiro ponto listado acima, no que tange aos neurotransmissores desregulados, existe uma solução que é atribuída pelos psiquiatras, que são os antidepressivos. Quando não se pode usar 100% de seu potencial - provindo da libido - reduz-se a sua capacidade de produção de neurotransmissores importantes para o bem-estar, alegria e bom humor, a serotonina, dopamina, noradrenalina, etc. Basicamente, vive-se em um estado de vida onde não se criam naturalmente os neurotransmissores por meio de sua própria rotina. Não há potência ou libido para isso, devido aos caminhos mentais das estruturas psíquicas adoecidas que impedem. Os antidepressivos são estímulos substanciais que provocam a criação dos neurotransmissores. Somente os psiquiatras e clínicos gerais podem prescrevê-los. Cria-se então uma cisão nos trabalhos mentais, entre psicólogos ou psicanalistas e psiquiatras. Acredito que, no mínimo, estes trabalhos devem ser complementares. Há um risco inerente em apenas considerar como solução isolada o uso de antidepressivos. Um dos sintomas mais agudos que constantemente precisam de terapias são os vícios em drogas. Maconha, cocaína, álcool, crack, até mesmo algumas comidas gordurosas. É a mesma dinâmica. É uma forma de compensar algo que você não está produzindo naturalmente. Porém, há efeitos colaterais. Os antidepressivos podem dar uma solução fácil. Apenas ingerir algo e aguardar o efeito chegar. Porém, sem um acompanhamento psicoterapêutico em paralelo, cria-se uma dependência ad eternum. É necessário um trabalho em conjunto com os psiquiatras para a liberação do próprio antidepressivo, que pode se tornar uma muleta, sem necessariamente elaborar e resolver os afetos. Ou seja, parou de tomar o remédio, se desampara. Neste caso, qual seria a diferença entre utilizar a maconha para o tratamento de estresse-pós-traumático ou antidepressivos, desde que se conste que os neurotransmissores necessários para um equilíbrio hormonal sejam gerados? É necessário trabalhar na causa, e não somente no efeito. E quando a causa for estabelecida, parar de atuar no efeito para se reestabelecer um fluxo livre de geração e expressão de libido. Os antidepressivos são um reforço. Porém, isoladamente, eles não podem resolver uma doença psíquica.
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