
As Existenciais Transformações pela Psicanálise
Ana Farago
•17/04/2026
•6 min
A Psicanálise é, como concebemos, a análise da mente, da psique, mais precisamente, do inconsciente. Ela ocupa-se, antes de mais nada, com aquilo que trazemos dentro de nós, com o que não temos domínio, neste cenário: os desejos. A Psicanálise é destinada a todos, pois todos temos insatisfações, frustrações e afins. Desse modo, precisamos atender a essas demandas, como as angústias internas, que ela se propõe a assessorar nas transformações necessárias para uma boa condução de nossas vidas. Além disso, o fato de estudarmos e exercermos o ofício de psicanalistas incita belas transformações naqueles que se dedicam a ela. Essas existenciais transformações são a temática do presente texto.
Ao refletirmos sobre aquilo que nos afeta pejorativamente, desorientando-nos; sobre aquilo que não apreendemos, que não sabemos sobre nós; o quão benéfica é a presença de alguém disposto a nos ouvir com atenção, respeito e cuidado, que intervenha com a finalidade de nos ajudar a descobrir, internamente, as respostas para nossos conflitos mais ocultos, absorvendo uma nova maneira de pensar e vivenciar a realidade. Ainda mais, atualmente, quando um número crescente de pessoas já não se permite sofrer, autodiagnosticando-se com depressão, síndrome do pânico, entre outros transtornos.
A Psicanálise, com sua perspectiva peculiar de cuidar do paciente sem a ideia categórica de curar — claro que, naturalmente, a cura pode ser efetivada dependendo de múltiplas e singulares causas —, enfim, nesse contexto, enfatiza-se que a postura do psicanalista é a de acolher a pessoa do paciente, sem o intuito de dar ou ensinar algo. Ao contrário, ele, o analista, está lá para desenraizar tudo o que nos impede de ser quem realmente somos, como pensamentos intrusivos, opiniões de terceiros, traumas e, assim, consecutivamente.
Os recursos da Psicanálise nos permitem o reconhecimento de certo narcisismo, bem como a compreensão mais detalhada de desordens, ou seja, de transtornos, tais como: sexuais, alimentares e, assim, a priori, como já foi investigado, todo e qualquer excesso de restrição leva, inevitavelmente, a uma compulsão, seja qual for. Para essas questões, a Psicanálise dispõe de recursos psicológicos fundamentais.
Sucessivamente, outro recurso promissor, de ordem psicológica, é a empatia. Sem essa habilidade de se colocar no lugar do outro, não se realiza a análise de modo eficaz. Assim, é fundamental para todo e qualquer psicanalista desenvolver essa capacidade. Caso o aspirante a psicanalista não possua essa habilidade inata, ele deve aprimorá-la sem demora. Pois essa empatia refinada é uma qualidade essencial, que nos tira do lugar de "donos da verdade", permitindo, dessa forma, uma troca mais justa e equilibrada em relação ao que é dito, ouvido e sentido pela pessoa do paciente.
No mais, pontuaremos sobre as transformações para aqueles que estudam e se dedicam à Psicanálise, especialmente sobre as transformações profissionais propriamente ditas. Essas transformações só se realizam se, e somente se, formos comprometidos com aquilo que buscamos alcançar, com tenacidade no estudo e na investigação da teoria psicanalítica, implementando o que deve ser feito sempre, enquanto mantemos uma abertura contínua com nosso próprio inconsciente, além do cumprimento do valioso tripé psicanalítico: Análise Pessoal, Estudo da Teoria e Supervisão. Com esse amparo, as transformações ocorrem necessariamente em seu tempo e espaço apropriados, possibilitando, além do trabalho em consultórios, também o trabalho em hospitais, escolas, prefeituras e, com o auxílio da tecnologia atualmente disponível, nos consultórios online.
Aqui, é pertinente mencionarmos, em suma, a Ética da Psicanálise, que, em si mesma, é transformadora no viés de também transformar. Além disso, é importante salientar que sua base é a própria Psicanálise, ou seja: o desejo do analista, o qual deve reger as ações deste desde o início do processo de interpretação. Contudo, quando falamos em ética psicanalítica, estamos nos referindo a algo que ultrapassa os entraves que atravessam o que concebemos como bem e mal, transcrevendo uma ação do ser que considera o desejo em sua essência. Mencionamos uma ética que também está na prática, no modo como pensamos, daquele que desempenha a Psicanálise como ela é. Então, o que define a ética na Psicanálise é o fato de que, nesse caso, considera-se o inconsciente e toda a sua verdade, que é implausível para aqueles que consideram unicamente o campo da consciência. Estes, por sua vez, são estimulados e determinados a pensar que sua verdade é a de que há, tão somente, um mal-estar inerente à condição humana. Essa ideia freudiana deve ser apreendida como uma assistência à compreensão do psiquismo humano. A partir disso, é possível inferirmos os lapsos que fazem parte da composição psíquica do homem e de seu cotidiano.
A ética na Psicanálise é mediada, em todos os seus ângulos, justamente, por um saber “insabido” que se dá na ordem do inconsciente e que necessita ter um escoamento no interior da própria análise, através daquela escuta flutuante, que é a escuta do sujeito. Esse sujeito, em Psicanálise, é o suposto do que se articula como fala e que, posteriormente, acaba também sendo mobilizado por meio desta. Ademais, é o sujeito que fala na medida em que alguém ouve e na medida em que alguém escuta. Por sua vez, o ser é instituído como sujeito cada vez que o outro, esse outro ouvinte, o busca na própria palavra e não no comportamento. Por isso, é capaz de revelar o seu desejo, que aparece na análise diante do desejo do analista, e esse desejo necessita ser realmente o de praticar essa escuta livre, essa escuta flutuante, em que não existem barreiras entre o bem e o mal ou o próprio desejo.
Sem mais, os benefícios para quem busca a Psicanálise ou para quem deseja se tornar psicanalista são inúmeros e únicos. Isso porque a Psicanálise, já em uma primeira etapa, nos posiciona de maneira mais assertiva sobre onde estamos, o que nos leva a um desvendamento de quem somos e de onde pretendemos evoluir com esse autodespertar. Passamos a nos relacionar com nossos sentimentos e emoções sob aspectos diferentes, além de nos expressarmos com mais confiança e de forma mais adequada diante das situações ao nosso redor. Defendemo-nos com mais naturalidade. Passamos a dizer não, quando necessário, e a dizer sim quando é apropriado.
Não permitimos mais sermos “pisados”, pois, quando estamos conectados com o que somos, quando sabemos onde estamos, não nos deixamos cair mais em armadilhas ou subterfúgios alheios que tendem a nos sucumbir. E assim, dessa maneira, para finalizar, acontece uma transformação em um ser mais sensato, instruído, diferente, por mais que não seja perfeito, uma vez que ninguém é; conquanto, alguém que aceitou a si mesmo e a sua finitude ou, se ainda não, no mínimo, alguém que está mais coerente, consoante com o que pensa, sente e com a maneira de interpretar a si mesmo e ao mundo. Transformações essas que não devem passar despercebidas, igualmente a uma potencial revitalização e um reapaixonamento pela vida.
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