Psicanalistas sem Fronteiras

O Comprometimento da Psicanálise com a Realidade Psíquica

Ana Farago
•
04/12/2025
•
6 min
A Psicanálise tem o intuito de auxiliar o paciente a reformular, reeditar e reiterar o trauma de sua realidade psíquica, já que ele encontra-se nessa realidade e não em outra qualquer. Em vista disso, é amplamente conhecido que nossa maneira de sentir determina que a realidade seja apreendida de uma ou de outra forma, seja ela alegre ou censurável. Aqui, é interessante citar o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, quando afirma: “Não somos aquilo que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós”, ou seja, trazer à consciência a atenção para nós mesmos. Assim, partindo da premissa de que a Realidade Psíquica é, para a Psicanálise, mais significativa do que a Realidade Concreta, sendo essa uma particularidade sua, e que a maneira como encaramos o mundo constitui essa realidade psíquica, compreende-se desde já que o motivador da análise não implica o que foi vivenciado, mas sim o discurso em si, a fala propriamente dita do sujeito. Pois o que permanece como lembrança não é a impressão primeira, mas a transposição dessa impressão para o paciente. Podemos pensar, nesse ínterim, que a verdade subjetiva caracteriza uma estrutura de ficção no que concerne essa articulação do discurso. Posto que o sujeito, de certo modo, vive as representações externas sob a ótica das representações internas de sua realidade psíquica. Por conseguinte, é nesse âmbito que a Psicanálise se aprofunda ainda mais, ou seja, na relação entre o paciente e o outro, constatando, nesse espaço, a interposição da fantasia, da mesma forma que identifica essa mesma interposição da fantasia na relação entre a existência psíquica e a realidade do sujeito, como lemos na CARTA A FLIESS – Carta 69 – Viena, 21 de Setembro de 1877: “A descoberta de que no inconsciente não existem indicações de realidade, de modo que não consegue distinguir verdade e ficção que é investida com afinco”. Fantasia, para Freud, é uma organização que corresponde à posição do sujeito em compatibilidade com o desejo, o jeito de ser, de sofrer e, entre outros, sua correlação com o mundo. A fantasia, não importa se consciente ou inconsciente, tem sua gênese no inconsciente, que, na visão freudiana, como já relatamos, é a verdadeira realidade psíquica, como compreendemos no capítulo VII de sua obra “A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS” de 1900: “O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; em sua natureza mais íntima, ele nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo”. Logo a seguir, o autor permanece conectando a realidade psíquica ao inconsciente, efetuando uma distinção clara entre a realidade em debate e outra categoria de realidade. “Se olharmos para os desejos inconscientes reduzidos à sua expressão mais fundamental e verdadeira, teremos de lembrar, sem dúvida, que também a realidade psíquica é uma forma especial de existência que não deve ser confundida com a realidade material”. Isso nos remete ao inconsciente e, com ele, à ideia da experiência primária da busca por prazer comum e, nas entrelinhas, à diminuição da tensão psíquica. Contudo, não apenas isso, mas, em um primeiro momento teórico, Freud entende que o princípio basilar do aparelho psíquico é o princípio de prazer em relação com a realidade. Não obstante, a pulsão, a fantasia, e o próprio inconsciente em si não têm nenhum engajamento com a realidade dos fatos. Outro aspecto valioso a ser considerado é o conceito psicanalítico da sexualidade que, mediante o pensamento de Freud, é lícito dizer, abrange muito mais, em suma, do que o ato sexual. Diversos autores reiteram que a questão da sexualidade é um princípio fundador da peculiar teoria freudiana. Com a qual o autor, posterior ao seu trabalho com as histéricas em sua clínica, continua nessa investigação, aprimorando o mecanismo de recalque e sua relação com a sexualidade humana, tendo em vista que recalcamos os impulsos sexuais. Tese ainda hoje muito polêmica, embora Freud tenha sido muito repudiado nesse argumento, sofrendo insultos e, inclusive, rompimentos de parcerias significativas para ele, tais como: – Josef Breuer (1842 – 1925), com quem conjuntamente analisou e estudou as histéricas, e: – Carl Gustav Jung (1875 – 1961), a quem chegou a reputar como herdeiro de seu legado psicanalítico. Considerando a veracidade, na qual a sexualidade cumpre, de fato, um papel expressivo na formação dos processos de distúrbio emocional, investigaremos, diga-se de passagem, de modo superficial, as razões pelas quais isso acontece, que são sumariamente duas, a saber: A primeira razão, formulada por Freud, é o fato de a sexualidade humana não ser biologicamente determinada. Isso faz alusão, evidentemente, à ocorrência de que a forma como demonstramos os nossos impulsos sexuais está, de maneira pontual, vinculada às experiências que vivenciamos. Assim sendo, no ser humano, a sexualidade é substancialmente desregulada, como se ela se realizasse de maneira passiva ao adquirir inúmeras formas distintas e ao submeter-se aos invólucros aos quais ela se posiciona. Por conseguinte, as experiências socioculturais inseridas desde o ventre materno se pressionam sobre cada sujeito, obviamente, de forma distinta de outras espécies. A segunda razão é a força, a grandeza do poder de atuação nos processos de distúrbio emocional, na condição de humanos, pelo qual ela se manifesta precocemente. Isso faz com que portemos uma atitude necessária de defesa contra esses impulsos sexuais, precisamente por eles se manifestarem em deliberadas ocasiões em que nossa estrutura psíquica é demasiadamente frágil, e, nesse contexto, estamos mais suscetíveis ao desenvolvimento de neuroses. Por esse viés, concluímos que as neuroses, as angústias e o mal-estar em geral são criadas, quando ainda somos muito imaturos para conter os impulsos sexuais que além de precoces ainda são fisiologicamente desregulados. Então, por essa carência de saber como contornar tais impulsos, diretamente vinculados ao inconsciente, entramos em conflito com a realidade concreta criando mecanismos de defesas, como o recalque, para refrear tais atitudes rejeitadas pela sociedade em geral e seus padrões de comportamento. A Psicanálise, no desígnio de demonstrar uma nova perspectiva ao olhar do paciente sobre o seu trauma psíquico, compromete-se com a ideia freudiana da singularidade e não da generalidade, com a realidade psíquica de cada sujeito. Esse legado que Freud nos transmitiu, de que a realidade psíquica é o condutor da clínica, encontra-se no domínio do complexo e enigmático, em outras palavras, fora do contexto do princípio da causalidade. Abre-se para o entendimento de que não devemos tentar interpretar a vida psíquica nos limites da causa e efeito, contudo, dependendo exclusivamente do modo como o sujeito é afetado e como ele traduz sua compreensão dos fatos, sobre sua relação com o mundo e consigo mesmo.
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