Psicanalistas sem Fronteiras

A depressão no século XXI

Débora Fálico Quintana
•
22/11/2025
•
5 min
A depressão é um dos maiores desafios de saúde mental no século XXI, sendo reconhecida como uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). É uma condição complexa, caracterizada por sentimentos persistentes de tristeza, perda de interesse ou prazer em atividades anteriormente apreciadas, alterações no apetite e no sono, fadiga e dificuldades de concentração. O Brasil tem uma das taxas mais altas de prevalência de depressão na América Latina, o que reflete fatores sociais, econômicos, culturais e biológicos. Embora os homens também sejam acometidos pela depressão, é nas mulheres que ela se manifesta com mais frequência devido a fatores hormonais e culturais. O patriarcado também contribui para esse quadro devido a violência contra as mulheres, a jornada dupla com o trabalho doméstico invisível etc. Alguns comportamentos desse século contribuem para que esse quadro se constitua e se agrave com tanta intensidade em praticamente todo o mundo. Os exemplos são: - o uso de tecnologia e redes sociais que, embora a tecnologia traga inúmeros benefícios, a constante conectividade pode levar a comparações sociais, isolamento e ansiedade. O uso excessivo das redes sociais também está associado ao aumento de sentimentos de inadequação e baixa autoestima. - a Mudança no estilo de vida marcada por ritmo acelerado, pressões profissionais e pessoais, menos tempo para atividades de lazer e interação humana de qualidade, urbanização e enclausuramento em prédios, cidades cinza e sem natureza, o sedentarismo, uma alimentação industrializada e ultraprocessada baixa em nutrientes. - crises globais como instabilidade política, pandemia de COVID-19, guerras, mudanças climáticas e o acesso fácil e constante dessas notícias, geram níveis elevados de incerteza e stress em muitas pessoas, levando-as a um estado deprimido. Os desequilíbrios químicos no cérebro, pré-disposição genética e condições médicas coexistentes continuam a desempenhar um papel importante, porém se agravam com os outros fatores citados acima. Os impactos da depressão são devastadores, pois não afeta só o indivíduo, mas também as suas relações interpessoais, desempenho no trabalho e na vida em geral. Apesar de ser uma doença muito comum hoje em dia, os estigmas associados à saúde mental podem dificultar a busca de apoio, prejudicando e agravando ainda mais o problema. Para Sigmund Freud e a sua teoria psicanalítica, a depressão é vista como um estado emocional relacionado a processos inconscientes. Freud utilizava o termo melancolia para descrever a depressão, que ele diferenciava de outro estado emocional, o luto. Sua análise mais detalhada sobre o tema encontra-se no ensaio "Luto e Melancolia" (1917), onde Freud explora as causas psicológicas profundas da depressão. Existem algumas diferenças entre o luto e a melancolia / depressão. O luto é uma resposta saudável e natural à perda de algo significativo (uma pessoa, ideia ou status), e, a energia psíquica investida no objeto perdido, é progressivamente retirada e redirecionada para outras atividades ou relações. Na melancolia /depressão ocorre uma perda emocional profunda, mas o indivíduo não consegue identificar ou processar totalmente essa perda. Em vez de soltar o objeto perdido, a pessoa internaliza-o, dirigindo a sua raiva e sentimentos negativos para si mesma, o que leva a um estado de autocensura, culpa e baixa autoestima. As causas da melancolia / depressão seria sentimentos de amor e ódio em relação ao objeto perdido. Quando esse objeto é internalizado, o ódio volta-se para o próprio indivíduo, ou quando o ego se identifica com o objeto, a raiva que deveria ser dirigida ao objeto é projetada contra o próprio ego. Segundo Freud, a melancolia é marcada por sentimentos intensos de culpa e auto depreciação, perda do interesse pelo mundo exterior, incapacidade de amar ou encontrar prazer, sensação de inutilidade e, em casos graves, pensamentos suicidas. Conflitos inconscientes podem manifestar-se também, especialmente aqueles relacionados ao desejo, culpa e repressão. Um exemplo seria um filho ser atropelado ao atravessar a rua. Os pais sentem culpa por não ter acompanhado esse filho, raiva dele por não ter seguido as instruções, antes ensinadas, para que ele pudesse executar essa tarefa, raiva de si próprio por se sentirem responsáveis pela perda. A depressão é tratável, e buscar ajuda é um passo essencial para uma vida mais equilibrada e saudável. Algumas abordagens não psicanalíticas para lidar com a depressão seria a terapia cognitivo-comportamental (TCC), medicamentos antidepressivos prescritos por profissionais qualificados e acompanhados de perto, mudança no estilo de vida como prática de atividade física regular, alimentação saudável, sono adequado, práticas de meditação e yoga, conexões positivas com amigos, família ou grupos de apoio como um suporte social, campanhas de sensibilização para reduzir o estigma da saúde mental, informando e incentivando as pessoas a buscarem ajuda. Tudo isso pode fazer uma grande diferença no tratamento e na melhora da vida e relacionamentos do indivíduo, entretanto, na visão freudiana, o tratamento da depressão/melancolia envolve a psicanálise, que visa trazer os conflitos inconscientes para a consciência. Através da análise dos sonhos, associações livres e transferência, o paciente poderia processar suas emoções reprimidas e resolver os conflitos internos. Essa abordagem analítica para a depressão foi o ponto de partida para muitas teorias e tratamentos subsequentes na psicologia e psiquiatria, influenciando a compreensão moderna da doença. Referencias Bibliográficas FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XIV. BRASIL. Ministério da Saúde. Depressão: causas, sintomas, tratamento e prevenção. Brasília: Ministério da Saúde, s.d. https://www.paho.org/pt/topicos/depressao https://open.spotify.com/episode/1bKAoWjJvztsRsohDUa4a1?si=780C1DSHR_WcRvRsUaQXSw&t=2757&context=spotify%3Ashow%3A1KFFCfznqIxtya66TTk8MA

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