
A Perspectiva da Liberdade no Pensamento de Sigmund Freud
Ana Farago
•03/12/2025
•7 min
“Não sermos escravos, não nos aprisionarmos em nosso conceito de liberdade… não sermos nossos próprios prisioneiros em função de nossa demasiada sensibilidade… Existe escolha quanto a isso? Não. Mas tornarmo-nos suscetíveis ao bom uso dessa sensibilidade é nossa busca… transformar o excesso em arte… em nossa arte… seja ela o que for… como a desconstrução e construção de si mesmo…”. (FARAGO, Ana Cristina – A Vida em minha Vida, Ed. CHIADO, 2016, pg. 43).
O objeto deste artigo é a reflexão sobre o conceito de Liberdade no pensamento freudiano, sob o prisma do inconsciente, sendo este o que o distingue e evidencia entre tantas teorias sobre a psique humana. No ínterim de que a liberdade implica autonomia do sujeito, a criação de seus próprios valores, leis, ou ainda, citando o filósofo dinamarquês Spinoza (1632-1677), no tocante à sua Filosofia Ética, quando diz: “Liberdade é agir segundo sua própria Natureza”, ou seja, a partir do agir de acordo com a vontade livre do Ser. Parece-nos, em um primeiro plano, difícil pensar a liberdade na teoria de Sigmund Freud (1856-1939), sem que haja uma mudança de paradigma do próprio conceito de Liberdade que consiste na autonomia do si mesmo.
Assim, como pensar em liberdade em um contexto social marcado por condicionamentos históricos, políticos e sociais aos quais Freud ressalta em sua obra?
No viés de uma conotação Política, que se nos apresenta como um Poder regulador, hegemônico, com a tendência de ser pensado como um jogo arbitrário de tensões entre indivíduos, associações de indivíduos, em prol de seus interesses pessoais constituídos e reconhecimentos, é abalado pela teoria freudiana de que o indivíduo não existe. O indivíduo, para o inventor da Psicanálise, é, na realidade, dividido.
Ao olhar freudiano, em suma, historicamente somos o resultado de uma submissão social, que está encrustada em nossas vidas psíquicas, advinda de um impacto social de disciplina e controle, que nos divide entre: a aceitação da nossa própria condição de submissão e a nossa insubordinação a ela, causando, dessa maneira, os sofrimentos psíquicos, tais como: o de inadequação, o de insatisfação, entre outros, intrínsecos à vida social. O sujeito, nesse contexto, não é uma entidade idêntica a si mesmo, contudo, um processo desigual e dividido, o qual recebe seu reconhecimento por meio desse mesmo sofrimento psíquico.
Nessa conjuntura, para Freud, somos constituídos por uma extensão histórica que se revela em nosso corpo físico e/ou mental como inclinações, pulsões, sintomas, etc. As pulsões estão intensamente impregnadas dessa dimensão que não se dá sobre a forma de resposta voluntária. Não obstante, não se encontra na forma de uma memória que o Eu recupera de maneira espontânea, mas sim, como uma dimensão involuntária no nosso aparelho psíquico, que nunca poderia ser objeto de uma representação da consciência, sendo representada pelo inconsciente.
O Inconsciente para Sigmund Freud
O inconsciente é notoriamente um divisor de águas no que tange à psique humana. Alegoricamente, podemos denominá-lo como um Universo à parte regido por seu próprio processo, funcionamento e, ademais, sua própria dinâmica. Não adere aos princípios vigentes no consciente. Aliás, o inconsciente tem um modo de pensar integralmente estranho à consciência. O consciente, como o concebemos, é a instância da psique mais próxima a nós, à qual estamos mais habituados. Ele, o consciente, é o encarregado por nossa percepção, raciocínio, pela atenção, além de nos conectar ao mundo externo e com ele nos relacionar.
Nesse instante, é aliciante salientar que Freud, mediante a investigação do inconsciente e do aparelho da psique humana, além de se tornar o pai da Psicanálise, traz consigo a marca de infligir na humanidade sua TERCEIRA FERIDA NARCÍSICA. Sendo que a PRIMEIRA se segue à descoberta de Nicolau Copérnico de que o planeta Terra não é o centro do universo, retirando da humanidade a desilusão implícita de também o ser. Já a SEGUNDA FERIDA NARCÍSICA remete a Charles Darwin em sua teoria da Evolução das Espécies, que coloca o homem no patamar de uma entre múltiplas outras espécies. Freud, nesse cenário, revela o conhecimento de que o sujeito, tal qual acreditava ser o Senhor de si, na realidade é condicionado de forma preponderante pelo inconsciente, tirando-o de seu pedestal de autodomínio.
Sem mais delongas, para Freud, o inconsciente é a explicação plausível para o significado dos sonhos e atos falhos, bem como para categorias de esquecimentos chamadas de repressões. O inconsciente abrange todas as pulsões, urgências e instintos não conscientes que, contudo, impulsionam, por assim dizer, a maior parte de nossas ações, sentimentos, pensamentos, palavras, etc. Isso implica que, por mais que estejamos cientes de nossos pensamentos, emoções e desejos, não estamos cientes dos processos que os precedem.
Logo, o que subsiste a posteriori da descoberta de que nossos desejos, além do nosso modo de desejar e da perspectiva de nossa vida, é a reverberação contínua de uma multiplicidade de desejos e experiências que nos precedem e das quais não temos uma representação consciente adequada, aflorando em nós de inúmeras maneiras e em diversos momentos. Isso abre espaço para a compreensão de que nossos desejos, anseios, pensamentos e assim por diante não são plenamente nossos. Esse entendimento gera, de forma indelével, uma transmutação do nosso jeito de nos relacionarmos, ou seja, de sermos afetados por outros de acordo com o âmbito histórico, político e social, conduzindo a um repensar do conceito de ação livre, não mais como se o Eu proporcionasse sua própria lei e/ou estabelecesse seu próprio controle.
A ação livre, mediante a reflexão freudiana, permite uma abertura para o que o Eu não controla totalmente, ao que não se submete inteiramente a um Eu, mas age em nós como uma ressonância de processos que nos constituem e, assim, descentra o limiar da ação para um horizonte mais abrangente. Atribui-se, dessa forma, uma alteridade ao si mesmo, esse lugar em nós que consiste em uma dimensão peculiar entre o Eu e o Isso, proporcionando, afinal, uma das maiores expressões de liberdade que nos é possível experimentar.
No mais, para o pensador em destaque, Freud, não há a perspectiva de pensar a liberdade dissociada da condição que fundamenta o sujeito, ou seja, a liberdade sem o embasamento de tudo aquilo que o constitui, determina e condiciona. Posto isso, perde-se o sentido, já que a distância entre o Eu e o Outro é proporcional à distância entre o Eu e Mim mesmo, em outras palavras, entre o que nos é consciente e nossos processos inconscientes determinados pelo impacto social, instaurado em prol da segurança em contraposição à liberdade. Exceto nessa perspectiva, da mudança de paradigma da liberdade pensada na circunstância da ação livre, dessa viabilidade, dessa abertura da ideia freudiana ao si mesmo, como medida para se chegar a uma aceitação do problema em questão como ponto de partida para novas reflexões sobre o problema da liberdade e uma vida feliz e harmoniosa entre o sujeito e o mundo que nos é dado.
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