Psicanalistas sem Fronteiras

Amor, Ódio, Elaboração e Ancoramento.

Raphael Bispo
•
16/01/2026
•
5 min

Elaborando o Ódio.

Convivemos em sociedade. Uma sociedade brasileira onde o que reina é a diversidade, formas diferentes de se pensar e uma riqueza cultural enorme. Estamos juntos nas ruas, nas escolas e universidades, nos trabalhos, nos eventos, em áreas de lazer e em lugares afins. Nessa sociedade existem alguns problemas vigentes e conhecidos, a respeito de criminalidade, desigualdade e miséria. Isso não é segredo. É um debate conhecido e espalhado nas televisões, nas rádios, nos botecos, nas universidades, nas empresas, em todo lugar. Existem opiniões divergentes, onde cada uma das linhas de opinião aponta algum ou alguns culpados. O apontamento de culpados irá variar de acordo com a cultura de cada pessoa, estudos, mas também principalmente de acordo com a sua vivência infantil emocional. Arrisco dizer que a vivência infantil emocional é o que mais pesa na decisão, por detrás de tudo. Quando digo isso me refiro a sua criação, ao seu entorno, aos seus acontecimentos e relacionamento com pais e/ou cuidadores. De uma forma ou de outra, cada um puxa a sardinha para o seu lado, consciente ou inconscientemente. Vou dar alguns exemplos práticos: uma pessoa que conviveu em um lar onde o pai constantemente batia na sua mãe, pode tender a discussões que dizem que o machismo é o mal que deve ser atacado, que as mulheres devem ser fortalecidas, e seguir pela linha da igualdade de gêneros. Outra pessoa que conviveu em uma periferia e passou a infância assistindo ao confronto entre traficantes e policiais nas proximidades de sua casa e perdeu algum amigo ou familiar, pode tender a discussões que dizem que o policiamento brutal é o mal que deve ser atacado, que a cultura periférica e o hip hop é o que deve ser estimulado. Outra pessoa que conviveu em uma família e teve algum membro dela morto em atropelamento feito por um motorista bêbado pode tender a soluções onde o alcoolismo seja o mal que deva ser atacado, e onde a sobriedade e disciplina devam ser estimuladas. Situações atípicas, individuais e emocionais regem o psicológico de cada um. O que vale ser ressaltado aqui é que essas situações que geram amor ou ódio precisam ser transmutadas. Como assim? Os 3 casos acima são situações que provavelmente suscitaram algum tipo de ódio dentro do individuo. Este ódio continua internalizado. Pode ser consciente, ou recalcado no inconsciente. Em ambas as situações, o ódio está sendo um combústivel para as ações da pessoa. Agora imaginem isso exponenciado. Quantas pessoas não estão por aí, carregando ódio provindo de situações emocionais infantis? Apontando culpados, aguardando a solução proposta pelos mesmos e iniciando toda essa jornada externa para dar vazão ao seu próprio sentimento. Neste caso, eu insiro a importância da Psicanálise como uma ferramenta de autoconhecimento. A psicanálise vem demonstrar que todas as suas emoções podem e devem ser elaboradas por meio da linguagem verbal ou não verbal. A psicanálise propõe um ambiente, conhecido como "setting terapêutico", onde você irá trabalhar as emoções que estão guiando os seus movimentos no dia a dia. Um terapeuta irá te acompanhar e possibilitar que você traga todos os aspectos de seu ódio para fora, por meio da fala, e ressignifique o ocorrido. Por que isso é importante? Primeiramente, é importante para a sua própria saúde mental e emocional. Com ódio ocupando tanto espaço dentro de você, como você terá espaço para outros sentimentos mais ternos? Estes sentimentos ternos, aliás, estão por detrás de todo o ódio, que é incentivado por um sentimento de vingança, afinal, feriram quem amamos. Em segundo lugar, é importante para a reconstrução da sociedade. Quando as suas emoções estão te dominando dessa maneira, a sua tentativa de propor soluções estará sempre munida de sua vivência emocional infantil, ou seja, sobrecarregada. Em uma construção de novas leis, novas formas de se enxergar, melhorias para a sociedade, o que ocorreu no passado não é necessário. Como assim? Quero dizer que trazer a emoção de ódio pela perda de um familiar para a construção de uma melhoria não é o local correto. Não é o local para que haja a devida descarga emocional. Na realidade, toda a descarga emocional precisa ser realizada antes, para que o trabalho possa ser bem efetivo. Vamos dar um exemplo com o caso do machismo. O ódio da pessoa pelo pai e pela submissão da mãe é o que originou a vontade de atuar em uma solução nessa área. Mas não é necessariamente essa energia que irá atuar na solução. O ódio é direcionado para o pai, unicamente para o pai. É o objeto central. Quaisquer outros objetos estariam fora de lugar. A descarga emocional tem um endereço, e este refazimento, anexando os afetos aos seus respectivos endereços, é o que irá te proporcionar saúde mental e emocional para conviver em sociedade sem exageros, ou sem desproporcionalidades. O ódio inicial pelo pai não deve se traduzir em um ódio por qualquer homem que em alguma ocasião seja bruto com uma mulher. Pensando exponencialmente, se todos estendessem a sua vivência emocional infantil, e os objetos de seus afetos para a sociedade, não seria possível a criação de um ambiente onde novas soluções possam surgir. Seria eternamente um confronto de emoções intensas com objetos perdidos, que se encontram dentro do psicológico de cada um. Eis a importância da Psicanálise.

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