Psicanalistas sem Fronteiras

As resistências e suas formas

Débora Fálico Quintana
•
22/11/2025
•
5 min
Na psicanálise, o conceito de resistência tem um papel central na teoria de Freud e refere-se a mecanismos ou forças internas – do Id, do ego e do superego - que o analisando desenvolve, consciente ou inconscientemente, para evitar enfrentar determinados conteúdos emocionais, memórias ou conflitos internos que são dolorosos ou perturbadores. Entretanto, ela também oferece pistas valiosas na investigação terapêutica. Elas se manifestam de várias formas e o propósito é sempre poupar o indivíduo do sofrimento. A resistência do inconsciente, ligada à repressão, ocorre quando o paciente evita trazer conteúdos inconscientes à consciência devido ao sofrimento ou desconforto que isso causaria, portanto, ele se nega a falar de certos assuntos ou fica em silêncio na sessão. Um exemplo seria um analisando não falar sobre a morte de um ente querido, mudando o assunto, sempre que o tema é trazido à tona, para trivialidades ou questões menos relevantes. O analista pode interpretar que ele teme reviver o sofrimento por sentir que a emoção e a dor será avassaladora. A resistência egóica surge do ego e tenta proteger o indivíduo de memórias ou emoções que podem abalar a autoimagem ou causar sofrimento psicológico. Essa resistência pode provocar esquecimento seletivo de eventos, sonhos ou das sessões, podendo ser interpretado como mecanismo de defesa inconsciente contra conteúdos emocionais difíceis. A resistência superegóica, relacionada ao superego, pode punir o ego por desejos ou pensamentos que considera moralmente inaceitáveis, portanto, o analisando não ousa falar o que pensa e/ou sente com medo de ser punido. Por vezes, esses pensamentos ou sentimentos não são conscientes. A resistência à interpretação, ocorre quando o analisando rejeita ou evita considerar interpretações feitas pelo analista, por medo de enfrentar a verdade, suas reações emocionais podem ficar intensas, e ele pode agir com hostilidade, negação ou defesa exagerada (em relação ao analista ou ao processo terapêutico). A resistência da racionalização ou intelectual é quando o indivíduo usa a lógica ou teorias cientificamente comprovadas para justificar seus atos, evitando assim olhar para si mesmo e manter-se emocionalmente afastado e protegido do que lhe causa desconforto. A resistência pelo humor, quando o analisando transforma questões sérias em piada ou ri de situações que envolvem dor emocional, pode ser uma maneira também de desviar a atenção de emoções difíceis. A resistência transferencial ocorre quando há transferencia para o analista dos sentimentos ou conflitos não resolvidos de relacionamentos passados. Ele pode se tornar hostil, crítico, dizer que a análise não funciona, ou que suas interpretações não faz nenhum sentido. Isso dificulta o progresso da análise. O analista deve observar como o analisando projeta esses sentimentos e usar como uma oportunidade de insight. A função do analista pode ser a de atuar como um guia, abordando essas resistências de maneira empática e gradual. Ele pode oferecer suporte para que o analisando tome consciência de suas resistências e trabalhe com elas, desenvolvendo autonomia e autocompreensão. Algumas estratégias podem ser usadas pelo psicanalista para abrir caminhos. A primeira delas é reconhecê-las e validá-las como legítimas. Deixar claro que existe dor e o medo por entrar em contato com certos conteúdos, e que eles podem ser explorados juntos e no tempo dele, que nem todas as resistências precisam ser enfrentadas imediatamente e que eles irão avançar conforme ele se sinta preparado. Esse comportamento do analista pode ajudar a estabelecer uma aliança terapêutica forte e uma relação de confiança, que é crucial para o progresso terapêutico. Quando o analisando se sente acolhido, sem julgamento, ele se torna mais propenso a enfrentar conteúdos difíceis. É dever do analista criar esse espaço seguro e empático, onde o analisando possa falar de seus sentimentos, pensamentos e dores. Outro passo importante é analisar e explorar a resistência em conjunto e assim tentar descobrir o que está sendo evitado e por que, trazendo clareza de que, na maioria dos casos, são conteúdos significativos e vão ajudar na superação dos obstáculos. Caso o analista tenha alguma ideia da resistência, as interpretações devem ser feitas com sensibilidade e no momento certo, observando os sinais e adaptando suas intervenções. Forçar uma interpretação pode aumentar a resistência. Explorar as emoções associadas a resistência também pode ajudar o analisando a entrar em contato com a mesma e dar nome ao que sente, revelando medos, ansiedades e conflitos inconscientes jamais imaginados por ele. Refletir sobre o progresso mostrando como ele está evoluindo na análise, mesmo que de forma gradual, pode incentivá-lo a enfrentar novas resistências com mais coragem. A resistência, embora vista inicialmente como um obstáculo ou um fracasso do processo analítico, é uma parte fundamental e não deve ser encarada como um problema a ser eliminado, mas sim como um sinal valioso que aponta para resolução de conflitos inconscientes. O objetivo do analista então, é ajudar o analisando a reconhecer e trabalhar com essas resistências, pois enfrentá-las é essencial para a cura e o crescimento. Referências Bibliográficas FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1996. FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade (1926). In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 20. Rio de Janeiro: Imago, 1996. FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923). In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1996. https://academiadosterapeutas.com.br/blog/post/6-manifestacoes-da-resistencia-na-psicanalise

Comentários (0)

Faça login para comentar neste artigo

Seja o primeiro a comentar este artigo