
Sexualidade Infantil
Kelly Barros
•28/05/2026
•4 min
Gênero & a Importância da Infância no Processo de Constituição do Sujeito
Sexualidade Infantil, Gênero e a Importância da Infância no Processo de Constituição do Sujeito
Por Kelly Barros – Psicopedagoga e Psicanalista
A infância é um dos períodos mais importantes para a constituição psíquica, emocional e social do sujeito. É nesse momento da vida que a criança começa a construir referências sobre si mesma, sobre o outro e sobre o mundo que a cerca. Ainda assim, determinados temas relacionados à infância seguem sendo cercados por tabus, desconfortos e interpretações equivocadas — entre eles, a sexualidade infantil e as discussões sobre gênero. Antes de qualquer julgamento precipitado, é fundamental compreender que falar sobre sexualidade infantil não significa sexualizar crianças. Na perspectiva da psicanálise, da pedagogia e dos estudos sociais, trata-se de reconhecer que o desenvolvimento humano envolve experiências afetivas, corporais, simbólicas e relacionais desde os primeiros anos de vida. Desde Sigmund Freud, a psicanálise já apontava que a sexualidade não surge apenas na vida adulta. Freud rompeu com a ideia de uma infância completamente “assexuada” ao demonstrar que a criança vivencia formas de prazer, curiosidade, identificação e construção subjetiva ao longo do desenvolvimento. Evidentemente, isso não corresponde à sexualidade adulta, mas a experiências fundamentais para a constituição psíquica do sujeito. Ao longo da infância, meninos e meninas são constantemente atravessados por expectativas sociais relacionadas ao gênero. Cores, roupas, brinquedos e comportamentos passam a ser classificados como “apropriados” para cada sexo. O rosa é frequentemente associado às meninas; o azul, aos meninos. Bonecas são direcionadas ao feminino; carrinhos, ao masculino. Mas até que ponto essas divisões são naturais? Judith Butler contribui amplamente para essa reflexão ao afirmar que o gênero também é produzido socialmente através de normas, repetições e expectativas culturais. Em sua teoria da performatividade de gênero, Butler demonstra que muitos comportamentos considerados “naturais” foram, na realidade, aprendidos e reforçados socialmente desde a infância. Isso significa que crianças não nascem sabendo que determinada cor, brinquedo ou comportamento pertence a um gênero específico. Elas aprendem essas associações através das relações familiares, escolares, culturais e midiáticas. Da mesma forma, Michel Foucault analisa como a sociedade produz discursos de controle sobre os corpos, os comportamentos e a sexualidade. Em História da Sexualidade, o autor mostra que a sexualidade sempre esteve ligada a mecanismos de normatização social. Ou seja, aquilo que entendemos como “normal”, “adequado” ou “esperado” também é construído historicamente. Quando uma criança é reprimida por brincar com algo considerado “do gênero oposto”, muitas vezes o que está em jogo não é o brinquedo em si, mas os significados sociais atribuídos a ele.
O brincar possui papel essencial no desenvolvimento infantil. Através das brincadeiras, a criança experimenta papéis sociais, desenvolve criatividade, elabora emoções e amplia sua capacidade simbólica. Limitar essas experiências com base em estereótipos de gênero pode restringir possibilidades importantes para o desenvolvimento emocional e cognitivo.
Um menino que brinca de cuidar de bonecas pode estar desenvolvendo empatia, cuidado e elaboração afetiva. Uma menina que brinca com jogos de construção ou ferramentas pode estar exercitando autonomia, criatividade e raciocínio lógico. O brincar livre não ameaça a infância; ao contrário, fortalece processos saudáveis de desenvolvimento. É importante destacar que discutir gênero e sexualidade na infância não significa impor identidades às crianças. O objetivo de um olhar ético e responsável é justamente promover ambientes mais acolhedores, menos violentos e menos rígidos em relação às singularidades humanas.
Muitas crianças crescem reprimindo emoções, comportamentos e formas de expressão por medo da rejeição, da punição ou da inadequação social. Essas experiências podem gerar sofrimento psíquico, insegurança e dificuldades emocionais futuras. Enquanto profissionais da educação, psicopedagogia e psicanálise, torna-se fundamental refletirmos sobre os discursos que reproduzimos e sobre os impactos que eles produzem na subjetividade infantil.
Pensar criticamente sobre infância, gênero e sexualidade não significa destruir valores familiares ou sociais, mas ampliar possibilidades de escuta, acolhimento e compreensão da complexidade humana.
Talvez uma das perguntas mais importantes seja: estamos permitindo que as crianças sejam sujeitos de sua própria singularidade ou estamos apenas ensinando maneiras socialmente aceitáveis de existir?
Referências
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal.
FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Obras Completas.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, Sexualidade e Educação: Uma Perspectiva Pós-Estruturalista. Petrópolis: Vozes.
WINNICOTT, Donald W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago.
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