
Um sonho, um desejo de controle, uma angústia
Débora Fálico Quintana
•22/11/2025
•5 min
Na psicanálise, o ato de sonhar é um tema central, especialmente no trabalho de Sigmund Freud, em seu livro A interpretação dos sonhos, publicado em 1900, que via os sonhos como uma janela para o inconsciente. Segundo Freud, os sonhos não são meras atividades aleatórias do cérebro durante o sono, mas sim manifestações simbólicas de desejos, conflitos, medos, traumas, repressões e emoções que muitas vezes não são acessíveis à consciência durante o estado de vigília.
O sonho tem uma função muito importante, a de realizar esses desejos inconscientes e estão reprimidos por não ser socialmente aceito. Os sonhos permitem que esses desejos sejam expressos de forma disfarçada, evitando o desconforto que sua realização direta poderia causar, satisfazendo o id.
Para interpretar os sonhos, Freud dividiu o seu conteúdo em duas partes: - o conteúdo manifesto e o conteúdo latente.
O conteúdo manifesto seria o que o indivíduo lembra ao acordar. Isso nem sempre vem de forma conexa, mas pode ser lembrada de uma forma muito estranha e até absurda, e num primeiro momento, sem nenhuma possibilidade de significar alguma coisa.
O conteúdo latente, seria os significados ocultos desse sonho, o que está reprimido por exemplo, e pode ser decodificado separando-os em partes e elaborando cada uma dessas partes com o que o faz mais sentido para o sonhador.
Esses sonhos podem aparecer de forma condensada, quando múltiplos elementos ou ideias são combinados em uma única imagem ou símbolo no sonho; de forma deslocada, quando a carga emocional de uma ideia ou desejo é transferida para outro objeto ou imagem; em forma de representação simbólica, quando objetos ou cenas no sonho frequentemente representam algo de forma metafórica, etc.
Um exemplo pessoal e a interpretação de um sonho muito esquisito que tive quando minha filha nasceu. Eu, meu marido e minha filha andávamos com muita dificuldade em cima de um muro muito alto e muito fino em uma noite muito escura. Não era possível ver o que tinha debaixo do muro, nem de um lado, nem do outro. Precisávamos de muito equilíbrio para conseguirmos nos mover em cima daquele muro, e não podíamos ajudar um ao outro. Era cada um por si. Eu tentava ajudar minha filha, desequilibrava e quase caia. Nesse sonho minha filha não era mais um bebê, já era uma criança grande, mas não era adulta ainda. E ela andava sozinha no muro, eu não entendia como ela conseguia sem a minha ajuda. Meu marido nem tentou ajudá-la. Aquilo me angustiou muito, e no próprio sonho eu entendi que teria situações na nossa vida que eu não poderia cuidar dela, ajudá-la ou salvá-la do perigo. Alguém precisaria fazer isso no meu lugar. E naquele momento eu percebi que existia apenas uma opção, confiar em Deus. Só Ele faria isso no meu lugar quando eu não pudesse ou conseguisse, mesmo querendo muito. Claro que isso tem a ver com minha fé. Isso me deixou aliviada, tanto no sonho como na vida, pois estava passando por um processo de depressão pós-parto e muitas vezes eu não tinha forças para cuidar dela, mas precisava fazer mesmo assim.
Só depois de muito tempo de análise, minha filha já adolescente, estudando psicanálise e lendo a Interpretação dos sonhos de Freud, eu pude decodificar esse sonho, até então indecifrável, mas que, vez ou outra aparecia no meu consciente e me deixava confusa.
Hoje, ele faz muito sentido, pois entendo que traduziu um desejo onipotente que as mães acham que têm (inconsciente coletivo de Jung) quando seus filhos nascem, o desejo de ser absolutamente necessário e a audácia de imaginar que ela só conseguiria fazer as coisas com minha ajuda. Porém, o meu inconsciente deu um jeito de me avisar que esse desejo era irracional e impossível. Mas eu não daria conta de lidar com essa angústia de impotência naquele momento, então, o meu ego usou como mecanismo de defesa a minha fé para que eu pudesse dar conta daquela realidade, onde em alum lugar eu sabia que não tinha controle de nada.
Ele retrata também meu medo do futuro, de não poder prever e controlar o que aconteceria com ela. No sonho, a noite é muito escura, simbolizando como não podemos enxergar nada além do momento. O meu medo de que eu não podia contar muito com meu marido (ele nem tentou ajudá-la), pois ele viajava bastante na época, ou a questão cultural de que os filhos são sempre da mãe. No sonho eu sabia que tinha mais pessoas em cima do muro, mas eu não as via. Isso retrata a falta de rede de apoio que sempre existiu na minha vida e maternidade.
Diante disso, podemos entender que a interpretação do sonho só pode ser feita pelo analisando. O analista pode incentivá-lo a compartilhar seus sonhos, e ajudá-lo de forma colaborativa, porém, sempre respeitando o seu processo de pensamento, pois só ele pode associar e contextualizar o que os símbolos significam dentro daquela história contada pelo inconsciente.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 4 e 5. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.