O cordão
Poesia

O cordão

Débora Fálico Quintana
06/01/2026
3 visualizações
0 comentários

Nas matas e nos campos, o nascimento é breve e definitivo. A fêmea lambe o filhote, corta o cordão com um gesto instintivo. O pequeno tropeça, busca o leite, aprende o cheiro do mundo, e logo caminha, difundo. A mãe observa, cheira, protege, mas há um momento certo, em que ela não mais rege. O filhote, guiado pelo instinto, entende que é hora de ir. Nos humanos, o corte acontece no corpo. Tesouras, mãos habilidosas, um choro, um alívio. Mas ninguém avisa o que continua preso, invisível no convívio. O fio insiste e se estende pelos dias na busca do olhar, da mão para segurar, no coração a descompassar. A vida inteira remendamos esse fio. Quando o filho quer distância, a mãe tenta costurar a saudade. Quando a mãe se cala, o filho sente o rasgo e volta com vontade. Remenda-se com palavras, com silêncios, com telefonemas de madrugada e abraços inesperados. Cada ponto dado é uma tentativa de equilibrar o afeto e a liberdade, a presença e a felicidade. Há dias em que o cordão se estica tanto e a dor parece rompê-lo. Mas na busca por continuidade, muda de forma, vira cheiro. Resistente, se torna o laço mais teimoso da existência. Nos animais, o vínculo é do corpo. Nos humanos, é da alma, e nenhuma alma aceita corte limpo, precisa transformá-lo.

Comentários (0)

Faça login para comentar neste tópico

Seja o primeiro a comentar neste tópico