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Reflexão

REFLEXÃO Psicanalítica SOBRE O CASO ANNA O.. O SINTOMA COMO LINGUAGEM E O PESO DO FAMILIAR

O SINTOMA COMO LINGUAGEM E O PESO DO FAMILIAR Em uma dessas noites em que o corpo cansado trava batalhas com a mente desperta, resolvi então reler o Caso de Anna O., e é desse lugar que nasce o texto de hoje. As releituras simplificam, clareiam, discernem, e são sempre bem vindas. Freud inicia os estudos sobre hipnose com Dr. Charcot, mas foi com seu colega Breuer que, acompanhando o atendimento de Anna O., ele desperta para a linguagem como veículo de modificação do sintoma , e faz correlações entre o tratamento hipnótico , linguagem, sintoma, consciente e dá espaço para o que futuramente chamaria de Inconsciente. Ele percebe que a hipnose, era um comando de fala, sob esse comando Anna falava e falava em alemão, ( um de seus sintomas era não falar mais sua língua natal), conclui que a fala modifica o sintoma, portanto, se a fala modifica o sintoma, pressupôs que o sintoma surgiu com algum evento relacionado a fala. Também observou que esse sintoma foi alterado pela fala na relação do paciente com médico, de onde conclui que o início dele se deu na relação da linguagem entre paciente e alguém ( mais tarde identificado , o pai de Anna). Outra observação importante sobre esse episódio, é que Freud percebeu que a hipnose nada mais é do que o rebaixamento da consciência, então, se no rebaixamento da consciência houve uma modificação de sintoma, o sintoma tinha origem nesse local que foi acessado com o rebaixamento da consciência. Assim o inconsciente chega ao consciente de Freud. O sintoma não é apenas dor ou desajuste, é metáfora, linguagem que se infiltra no corpo porque não encontrou passagem pela fala. Quando a hipnose permitiu que Anna dissesse, ainda que sob comando, algo de sua dor, o sintoma se deslocou, como se o corpo fosse palco de um drama que só se resolve quando alguém ousa escutar. Freud percebeu que não se trata de calar o sintoma, mas de decifrá-lo, como quem lê um poema cheio de imagens , silêncios e sons. Mas pretendo ir além desta etapa teórica, pretendo tocar naquilo que nos prende; a repetição do familiar. Procuramos abrigo no que conhecemos, mesmo que seja um abrigo em ruínas. Há uma estranha fidelidade ao sofrimento herdado, como se insistíssemos em reencenar a tragédia na esperança de que, desta vez, o final seja feliz. É uma esperança cruel porque o roteiro não muda apenas pela repetição, o inferno familiar continua sendo o inferno, ainda que o visitemos com a fantasia da redenção. O que se revela, então, é uma verdade dura; não basta repetir para transformar, é preciso escutar o sintoma, decifrar o enigma, reconhecer que o inconsciente fala em nós como uma língua estrangeira, só assim podemos interromper o ciclo e escrever outra história. Marília Kubata.