O sentido que eu dou
Eu sou Allan. E a minha história começa antes de eu saber quem eu era. Começa quando meu corpo ainda era pequeno demais para entender o mundo, mas já grande o suficiente para sentir dor. Aos sete meses, uma queimadura. Quatro dias internado. Talvez ali eu tenha aprendido, sem palavras, que existir também pode doer. Cresci sob mãos erradas. Um padrasto que transformava gestos simples em medo. Petelecos, tapas, violência disfarçada de normalidade. Uma mãe que, ferida pela própria vida, me feriu também com palavras duras e agressões. Entre nós nunca houve abrigo, só ruído. Quem me salvou foi minha avó. Desde a barriga da minha mãe, ela já me cuidava. Foi ela quem sustentou minha infância quando tudo ao redor falhava. Ela era presença. Era o pouco de ordem dentro do caos. Houve ainda um silêncio mais pesado. Um abuso cometido por quem não deveria jamais tocar. Uma violência que não cabe inteira na linguagem. Aquilo não quebrou só a infância, quebrou a confiança no mundo. E mesmo assim, eu segui. Nem tudo foi sombra. Houve Cachoeira da Prata. Ali eu conheci amigos, escola, risadas verdadeiras. Por um tempo, fui apenas uma criança vivendo. E isso fez diferença. Isso manteve algo em mim respirando. Cresci. Tentei amar. O primeiro amor passou como passam as coisas que não alcançam o fundo. Não doeu tanto. Mas o segundo… Ela foi tudo pra mim. Porque ela me deu um carinho que eu nunca tinha recebido. E quando alguém toca esse lugar, não toca só o presente, toca toda a história que veio antes. Ficamos um ano juntos. Tínhamos tudo para dar certo. Ela me traiu. Eu vacilei. E quando acabou, não foi só um relacionamento que terminou. Foi como perder, de uma vez, o afeto que a vida sempre me negou. O sofrimento que ficou não tem nome. Porque não é só por ela. É por tudo. Hoje, o sentido que eu dou para a minha história é outro. Eu entendo que não sofro porque sou fraco. Sofro porque fui ferido cedo. Entendo que não amei demais. Amei com fome. Ela não foi a origem do carinho. Ela foi a prova de que ele é possível. Ela não levou isso embora. Ela apenas revelou algo que já existia em mim, esperando permissão para existir. Minha história não é bonita. Mas ela é verdadeira. E talvez o sentido dela não seja vencer, nem esquecer, nem apagar o passado. Talvez seja aprender, aos poucos, a ser para mim mesmo o cuidado que sempre procurei nos outros. Eu sou Allan. Não sou o que me fizeram. Sou o que escolho construir com aquilo que sobrevivi. Por Allan
Comentários (0)
Faça login para comentar neste tópico
Seja o primeiro a comentar neste tópico
